Estamos na Era da Mobilidade ou do brain drain?

Por Júlia de Sousa

Muito se fala em emigração actualmente, principalmente emigração de mão-de-obra qualificada. Devemos por isso falar em mobilidade ou brain drain?

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Conceitos como mobilidade ou brain drain (fuga de cérebros em português) fazem atualmente parte do léxico comum. Mas afinal, estamos na era da mobilidade ou do brain drain?

Podíamos resumir este texto com uma resposta muito curta à pergunta anterior. Bastava dizer: Ambos!

De certa forma, uma favorece a outra. Ou seja, por estarmos na era da mobilidade e da globalização, o brain drain fica facilitado.

Mas antes de avançarmos mais, convém esclarecer alguns conceitos. Antes de mais o que é o brain drain?

Brain drain: quando os cérebros fogem

De forma simplificada, o brain drain aplica-se paradefinir, como indica a expressão em português, a fuga de cérebros. Ou seja, refere-se à perda de capital/recursos humanos com níveis de formação elevados.

O conceito aplica-se para definir a saída de profissionais com níveis de formação superior (nos vários graus: licenciados, mestres e até doutorados), que abandonam países menos desenvolvidos, em detrimento de países mais desenvolvidos.

Portas abertas para o mundo

A crise e o desemprego em Portugal “obrigam” a nossa mão-de-obra qualificada a procurar outras soluções. Falamos de pessoas com formação superior que à falta de emprego no nosso país encaram a emigração como uma oportunidade.

Mas não só. Nem só os desempregados que procuram sair do país em busca de melhores ares, se enquadram neste perfil. Falamos também de profissionais que querem mais das suas carreiras, que procuram uma oportunidade onde possam progredir (algo que muitas vezes lhe é negado no nosso mercado).

Para todos estes que falamos há, no entanto, um factor comum. A vontade de construir uma carreira firmada. Aqui entra a tão falada mobilidade, que permite o alargamento de horizontes em termos profissionais. E que tornam os mercados mais apetecíveis para quem procura emprego muito mais permeáveis às entradas e saídas de novos profissionais e/ou profissionais de outros países.

Mobilidade ou brain drain: que realidade é a nossa?

Muitos são portugueses (independentemente do nível de formação, idade ou género) que todos os dias partem apenas com bilhete de ida. Fenómeno novo?! Não!

De facto, esta é já terceira grande vaga de emigração que Portugal conhece. Para quem agora parte, é quase como se estivesse a seguir os passos dos avós e dos pais, que anos antes deixaram o país em busca de uma vida melhor. No entanto, agora há uma diferença em relação às gerações anteriores.

Se nas primeiras duas vagas de emigração se percebia que emigravam pessoas com pouca ou nenhuma formação, os números apontam uma realidade diferente agora. Além de profissionais com níveis de formação mais baixos, as estatísticas revelam que atualmente são maioritariamente as pessoas com mais formação académica que deixam o país.

É aqui que reside o fator de preocupação, já que devido a este fenómeno o país perde a grande parte da sua mão-de-obra qualificada.

Aqui impõe-se a nossa questão inicial. Qual é a nossa realidade? Devemos falar de mobilidade ou de brain drain?

Como dissemos antes, é um pouco dos dois conceitos, senão mesmo a junção de ambos. A crescente globalização, o domínio de uma ou várias línguas estrangeiras, ou o acesso facilitado aos mercados internacionais, pode ser justificação (mais que suficiente!) para explicar a saída de profissionais qualificados.

Falar de brain drain é falar de aspetos positivos e negativos. Isto é, se por um lado a saída de mão-de-obra qualificada do nosso país significa um prejuízo no sentido de se poder dar “por perdido” o investimento feito na educação destes profissionais e, consequentemente, a perda do seu potencial; por outro lado, a saída e progressão destes profissionais pode significar, em caso de regresso, uma mais-valia para as empresas nacionais, dados os conhecimentos e a experiência internacionais adquiridos.

O que fazer a seguir?

No seguimento do que dizíamos anteriormente pode, no entanto, questionar-se a intenção de regresso destes “cérebros em fuga”. Para quem parte e encontra fora a oportunidade que nunca teve ou sabe que certamente não terá, o regresso estará certamente fora da equação. E este é um facto inquietante.

Para inverter este fenómeno, o país terá que (obviamente) recuperar da situação económica em que se encontra e muito terá que ser feito para que volte a ser um destino de interesse para quem tem ambição de uma carreira profissional de sucesso.

Mas uma coisa é certa, mobilidade e brain drain são dois conceitos que estão intimamente ligados. E embora um não promova o outro, certamente ajuda.

Artigo produzido da parceria entre os projetos ICote e E-Konomista.

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Author: Jorge Correia

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