Pago mais, recebo menos…

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Quando um dos temas da agenda mediática é o aumento, ou não, do salário mínimo nacional, achei por bem fazer uma retroespetiva sobre esse tal salário. Muitas pessoas sabem que isso é apenas no papel, infelizmente, conheço bastantes casos que isso não acontece, que o salário mínimo está longe de ser o que se recebe.

Serão os países nórdicos uma inspiração? Enquanto na Dinamarca, Finlândia, Noruega e Islândia não há um limite mínimo legal de salário a pagar, e são exemplos, na minha opinião, que se devem seguir, temos também a Itália que lhes segue as pisadas, bem como a Macedónia e o Chipre, esses com salário mínimo em alguns casos. O salário mínimo mais alto é oferecido no Luxemburgo, cerca de 1 900 euros, curiosamente, o país com mais emigrantes portugueses por km².

Ao falar com um amigo grego, há cerca de um ano, estávamos a comparar os dois países. Enquanto falávamos mal dos nossos países, no meio, colocávamos algo bom. O clima, as pessoas, a história, o futebol… Se bem que no futebol ele riu-se de 2004. É normal. O que ele me disse deixou-me a pensar e bem. Era engenheiro químico e teve que sair para ir trabalhar para o Reino Unido, numa fábrica de batatas. Estava longe da mulher, enfermeira farta de cortes, e de duas filhas que lhe colocaram a lágrima no canto do olho quando me mostrou as fotos. Eu perguntei-lhe como é que era possível isso acontecer. Como é que alguém com a formação dele podia mudar assim radicalmente de emprego, deixar tudo aos 40 anos e partir para o desconhecido, com um inglês básico e estar num quarto minúsculo, enquanto na Grécia tinha uma casa de classe média-alta. Ele falou da corrupção, do aumento do preço das coisas e da diminuição do preço de compra. O salário mínimo, em 2012, desceu mais de 200 euros. No caso dele, tinha perdido cerca de 400 euros do seu salário, algo fulcral para poder pagar creche, livros, casa, carro, contas, comida…  Por fim, perguntou-me como era Portugal, um país que conquistou meio mundo e agora devia dinheiro a esse mesmo meio mundo, como é que tinha chegado ao ponto a que chegou. Eu hesitei, engoli em seco e sorri, sem saber o que dizer. Terminámos dizendo que dois dos países com mais história e conquistas no globo são as que estão pior. É lamentável.

No entanto, se formos ver os outros países, temos a Eslovénia, Luxemburgo e o Reino Unido – apesar deste ter tido altos e baixos – como únicos países com subidas minimamente consideráveis no salário mínimo. Podemos ficar reconfortados com isso. Ou não. Vai chegar a um ponto insustentável, em que tudo vai ser demasiado caro. Lembro-me de andar com o meu pai de carro, na altura do escudo, e de pensar: “Quando tirar a carta, vou andar de carro até mais não”. Hoje que tenho carta e carro, o meu pensamento é completamente diferente. Não sou da área da economia, nem lá perto, mas é difícil ver este panorama tão negro a alterar-se para cores ainda piores, cores que nunca pensei ver ou que existissem.

Faço-vos um último apelo: pensem no preço das coisas antes do euro e agora. Batatas fritas, combustíveis, roupa, água. Aí irão voltar as saudades do Garcia da Horta nas costas das moedas de 200 escudos e das caravelas nas moedas de 50, por exemplo. Bons tempos, bons tempos…

Jornalista Desportivo, ICote Content Manager & Communication Coordinator 

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